Reportagens sensíveis que revelam detalhes dos bastidores da indústria
brasileira de brinquedos salvam o que poderia ser apenas mais um
programa de debates sem nenhuma graça. Nesta semana, "Trampolim",
exibido pela STV, discute a participação do lúdico na rotina dos
profissionais que criam brinquedos.
A atração não revela aspectos econômicos do desempenho dessa indústria,
mas encanta ao revelar histórias como a da pequena empresária alemã que,
por ter nascido durante a Segunda Guerra Mundial, nunca teve um brinquedo
quando pequena. Hoje, comanda uma fábrica de brinquedos educativos
feitos em madeira.
Em um universo que remete às oficinas de Papai Noel, tudo, na verdade,
é planejado: psicólogos, pedagogos, designers e marqueteiros trabalham
em conjunto para inventar o sonho em cada produto. O funcionário
rodeado por brinquedos em movimento, na verdade, está testando
mercadorias -e o trabalho é sério.
Nada é à toa. Até as expressões aparentemente toscas das bonecas
artesanais -olhos, nariz e boca são representados somente por pequenos
círculos de tinta- têm uma explicação fundamentada: um sorriso aberto
ou uma carinha triste limitariam a criatividade da criança.
De modo sutil e inteligente, o programa faz a transposição do educativo
para o comercial, descobrindo o lucrativo mundo do licenciamento de
personagens de desenhos animados. Tal como os distribuidores do cinema,
a indústria de brinquedos dá tiros no escuro ao apostar em figuras de
filmes que ainda serão rodados.
Multimídia, a criança de hoje se divide entre os jogos eletrônicos,
competitivos e estressantes, e os brinquedos tradicionais, que teriam
papel relaxante. Para os convidados do programa, essa é a razão pela
qual os tradicionais não estão ameaçados pela tecnologia.
Autor: Bruno Lima
Fonte: Folha de São Paulo